segunda-feira, 19 de março de 2012

" Quadro do quarto da vovó"

por: Vitória da Matta Ferreira 






Sentada em um balanço, sinto que posso voar ao dar um impulso bem forte. Por um breve segundo vejo tudo do alto e então volto a cair. E depois subo de novo, em um vai e vem que parece não ter fim. Seguro bem forte a corda, que raspa na palma da minha mão grosseiramente. O ranger da corda em um ritmo cadenciado me faz viajar para bem longe, transportando-me para um lugar imaginário.
Fecho os olhos para poder sentir o vento que me envolve com serenidade e toca minha pele levemente, acariciando-a. Sinto-me mais leve, como se estivesse voando. O aroma da natureza ao meu redor forma uma brisa fresca e perfumada, das manhãs de verão. O sabor do vento me lembra amoras, jabuticabas, morangos, posso sentir o gosto de frutas dentro da minha boca.
A luz do sol rompendo os galhos e folhas das árvores traz de repente um calor morno e confortante e enche de brilho meus olhos e a paisagem em volta de mim. Posso ouvir em harmonia com o ranger das cordas o canto de passarinhos que se animam com a luz do sol.
Meu sapato sai, permitindo que meus pés toquem as folhas, aquecidas pelos raios de luz, mas ainda úmidas pelo orvalho da manhã.
Quanto sentimento de liberdade, de paz, de contemplação. Quanta vontade de eternizar aquele momento em um quadro de sentimentos e imagens que, ainda que presos em uma moldura, representem toda a paixão e vitalidade de minha juventude!



O Balanço
Auto: Jean-Honoré Fragonard
 Onde ver: Wallace Collection, Londres, Reino Unido 
Ano: 1767 
Técnica: Óleo sobre tela
Tamanho: 81cm x 64cm 


Minhas lembranças do balanço, que ficava no quintal da minha , se misturaram com as sensações que tinha ao ficar olhando para o quadro. Já não consigo lembra-los separadamente e diferenciar as memórias. O quadro virou uma foto do que vivi.  


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